É preciso mais do que uma simples opinião para discutir

dezembro 15, 2008 at 6:00 pm 2 comentários

 Liliam Freitas

 

No geral, as pessoas acham que podem dissertar sobre tudo, inclusive sobre assuntos que não têm leitura. Leram no jornal, viram na televisão e pronto já têm know-how. Muitas vezes, possuem apenas uma opinião não balizada nem aprofundada. Nesse caso, é melhor nem tentar evocar uma discussão. Geralmente eu digo que li e peço que os colegas façam o mesmo. Parece arrogante, mas não é.

Na última sexta feira, em uma mesa de bar, veio um assunto que 99% dos brasileiros acreditam que conhecem, quando na verdade dispõem apenas de uma opinião, como de costume não fundamentada. O tema as cotas para negros. Vêm o achismo e os velhos “argumentos” de quem não leu nada, tem apenas opinião. Ai começa, “negro não é incapaz” (Eu digo: o viés não é esse), “a questão é social, não é racial” (não se separa um do outro. Cadê  a Antropologia e Ciências Sociais. Socorro, estava com colegas do Jornalismo, cruzes…), “deixa se ser besta negro rico não sofre preconceito” (que autor escreveu isso e se sustenta em que?), “não tenho a ver com a escravidão” (diz uma amiga negra na discussão! É coisa do passado! Contraditório. ). E surgem mais disparates.

Sempre digo que a questão não pode ser reduzida a ser contra ou a favor, isso é reducionismo. É premente saber por que as cotas foram adotadas no Brasil. Não é esmola. As cotas em si não resolvem, qualquer um sabe disso, no entanto, colocam a problemática para a sociedade para que políticas sociais cheguem ao segmento negro. No Brasil, a população negra tem os piores índices sociais: educação, moradia, saúde e etc. E as colegas ainda falam em capacidade, fala sério! É uma cegueira social. No banheiro, como não dava para discutir com quem não saiu de um péssimo senso comum, disse: “As universidades já adotaram independente da opinião de vocês. Fazer o que?” ironizei.

A grande lição é que não converso mais cotas ou outro assunto com que não sabe, indicarei livros, autores. E peço para depois discutir.  Lembrei de um colega da Academia que falou que era contra, foi ao seminário, teve mais conhecimento e agora é a favor. Não vivemos no paraíso em que todos são iguais e desfrutam das mesmas oportunidades. A maioria dos negros está nas piores. Gostaria de ser contra as cotas, na verdade sou contra a situação que nos leva as elas!

Acadêmica do curso de Pedagogia e Jornalismo, respectivamente das Universidades Estadual e Federal do Maranhão

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2 Comentários Add your own

  • 1. Frank Lima  |  dezembro 17, 2008 às 2:58 am

    Olá querida Lilian “Lembrei de um colega da Academia que falou que era contra, foi ao seminário, teve mais conhecimento e agora é a favor”. isso também aconteceu comigo, confesso que você está completamente certa em suas colocações.

    Cotas sociais devem existir sim, afinal vivemos em um país pobre onde a miséria é nítída, onde você repara um fluxo exacerbado de alunos de classe média alta em universiades federais que deveriam ser de todos “gratuitas” e vê pobres que não tiveram uma estrutura do governo para uma boa qualidade na educação de base e no decorrer de sua vida passando o dia trabalhando para pagar uma faculdade particular.

    Devemos ter cotas sim, por esse e por outros motivos, esta é uma politica emergencial que deve ser tomada para uma iserção daqueles que são desprovidos a vida toda e ainda se deparam com uma concorrência desleal no vestibular.

    Cotas Socias independentemente da cor da pele de cada um, cotas para aqueles que consigam mostrar e demonstrar que são pobres. “esta sim, é uma política de cotas correta”

    Belo texto amor. boa noite.

    Responder
  • 2. liliamfreitascs  |  dezembro 17, 2008 às 7:08 pm

    Na verdade, falo de você no texto. Acontece com tanta gente, ao mesmo tempo não ocorre com muita gente. É pra lamentar essa história de cotas, mas a nossa conjuntura sócio-econômica e constitucional as permitem. Nos obrigam a aceitar-las. O desfecho do meu texto é massa, que em eu falo que sou contra a situação que nos levam as cotas.

    Estamos em um país de terceiro mundismo, isso quer dizer, com desigualdades, gigantescas. Concordo em cotas sociais e raciais, não dissociando.

    Não foi de graça que o movimento negro conseguiu. Fernando Henrique Cardoso, nosso grande sociológo, foi o primeiro presidente a assumir que existe Racismo no Brasil. E racismo não é só dizer “Tu é feio”, “teu cabelo é ruim”. São oportunidades que são negadas porque a pessoa é negra. Na escola, o aluno não conhece sua história, passa a negá-la. O ideal de beleza não é o seu. Isso é uma Violência Simbólica (Vamos a Bourdieu, a massa não o conhece!)Ao mesmo tempo, ele sofre em uma escola, se evade ou reprova. “Não disse que preto é burro”.
    Se sair dessa escola, quais a chance de passar no vestibular da UFMA para medicina?!
    Não concordo com o discurso do movimento negro de sempre se fazer de vítima, mas há fatos e números. Ser pobre e ser negro no Brasil não é muito fácil.
    Cotas aí como uma passagem, um estado transititório, para que os negros entrem mais na universidade.

    Brigadão, a gente discute mais…

    Responder

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